terça-feira, 13 de agosto de 2013

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                                                                                                            Imagem retirada da internet


                                                                                      José Luiz Fiorin

RESENHA: Modos de organização do discurso.
Roberta Galdino[i]

            José Luiz Fiorin é professor e linguista brasileiro. Um dos maiores especialistas brasileiros em Pragmática, Semiótica e Análise do Discurso, com centenas de publicações nessas áreas. Graduado em Letras pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Penápolis (1970), defendeu mestrado em Linguística pela Universidade de São Paulo (1980) e doutorado em Linguística pela Universidade de São Paulo (1983). Fez pós-doutorado na École des Hautes Etudes en Sciences Sociales, (Paris, França), (1983-1984) e na Universidade de Bucareste, (Bucareste, Romênia), (1991-1992). Atualmente é Professor Associado do Departamento de Linguística da FFLCH da Universidade de São Paulo. Foi membro do Conselho Deliberativo do CNPq (2000-2004) e Representante da Área de Letras e Linguística na CAPES (1995-1999). Tem experiência na área de Linguística, com ênfase em Teoria e Análise Linguística, atua principalmente nos seguintes temas: enunciação, estratégias discursivas, procedimentos de constituição do sentido do discurso e do texto, produção dos discursos sociais verbais.
            O texto “Modos de organização do discurso: A narração, a descrição e a dissertação”, divide-se implicitamente em: introdução dos princípios gerais, do modo de organização do discurso, além de explicações das especificidades e singularidades de cada um deles.
            A princípio o autor explicita-nos os três modos de organização do discurso (Narração, descrição e dissertação), como sendo os mais comumente trabalhados pela escola, ao passo que critica a maneira como a escola explana a explicação da organização do discurso, sendo esta explicação de maneira mecânica e descontextualizada, o que segundo o autor muitas vezes acaba por confundir o discente em relação às instruções para a produção textual. A escola com base em uma educação tradicionalista trata os modos de organização do discurso de maneira homogenia, exigindo em seus exercícios de produção textual, por exemplo, a narração pura, a dissertação sem mistura, o que torna a produção textual artificial, uma vez que contextualmente os textos tendem a combinar várias formas de organização do discurso. Assim, com base na heterogeneidade textual o autor expõe o primeiro conceito de organização do discurso.
            No texto Fiorin, discorre-nos sobre a diferenciação de narração e narratividade, sendo esta ultima uma organização abstrata dentro do discurso, segundo o autor este tipo de componente narrativo, está presente em todos os textos, seja de maneira evidente ou entre linhas. Explica a narratividade como sendo uma transformação de estado (a mudança de um estado inicial para um estado final).
            O autor analisa em seu texto outros aspectos importantes de categorias do discurso, como figurativização (tipo de discurso organizado em sua maioria por vocábulos concretos), cuja finalidade é criar uma simulação do mundo (acontecimento real). E a tematização (onde a organização do discurso se dá por termos abstratos) e cujo objetivo é explicar os dados da realidade. Assim Fiorin explica-nos que a figurativização e a tematização são dois níveis de concretização do discurso, e que sob todo texto figurativo há um componente temático, o qual o leitor precisa interpretar para realmente compreender o texto.
            Posteriormente a evidenciação dos conceitos de narratividade, figurativização e tematização, o autor passa a explicitar-nos as características e especificidades da descrição: Este, segundo o autor, é um texto figurativo (simulacro do mundo), cujo intuito é criar a existência dos seres do mundo natural (seja qual for este mundo, criado pelo texto), nomeando-lhes características e qualidades que os tornam únicos, criando-se assim o cenário onde ocorre a ação. O componente narrativo é organizado entre linhas, ou seja, de uma maneira geral o texto descritivo não apresenta situações de transformações evidentes, o conceito é implícito. Desta maneira segundo o autor a descrição explicita somente o estado inicial ou final, deixando pressuposto à transformação de um estado para outro. Assim como o texto descritivo mostra estados inexoráveis, muitos textos começam com um trecho descritivo e passa para o modo de organização narrativa, estabelecendo a transformação de um estado a outro, desta maneira Fiorin explica-nos como a descrição dá sentido a narração, ao passo que qualifica e, portanto singulariza os atores da narrativa, localizando-os no tempo e espaço. Neste trecho do texto o autor deixa-nos claro a função narrativa que é evidenciar a transformação de um estado para outro, enquanto que a descrição focaliza apenas o estado, seja ele inicial ou final.
            Para diferenciar um texto descritivo de um narrativo o leitor deve-se ater que a narração sempre explicita alterações de estados, enquanto que a descrição privilegia o enfoque dos dois estados o anterior e o posterior à transformação.
            Para evidenciar o conceito de narratividade, tematização e figurativização, Fiorin, discorre-nos em seu texto as características pertinentes a cada modo de organização do discurso. Iniciando pela organização descritiva: É um texto figurativo, pois a partir de termos concretos cria-se um ser do mundo natural denotando-lhes especificidades e localizando-lhes o que os tornam realidade do ponto de vista textual. O componente narrativo é implícito, observa-se no texto descritivo apenas a suposição de algo transformado, porém o foco é sempre no estado inicial ou final. Em um texto descritivo não se leva em conta a sucessão dos acontecimentos, logo a ordem da descrição não altera o entendimento geral do texto. Os tempos verbais utilizados são o presente e o pretérito imperfeito.
            Já na organização narrativa o autor explicita-nos os seguintes princípios: O texto é figurativo já que é permeado de termos concretos. Porém na narração o foco é para as transformações de estado, onde as ações relatadas tem uma finalidade, uma explicação que dá sentido a transformação. Tais ações são apresentadas como uma sucessão no tempo, logo os tempos centrais da narração são os perfectivos: Pretérito perfeito, pretérito mais que perfeito etc. A narração segue uma ordem cronológica não sendo possível muda-las, por exemplo, uma ação anterior não pode mudar para posterior e vice versa sem afetar radicalmente o sentido do texto.
            No texto dissertativo Fiorin, explicita-nos como sendo um texto temático, cuja finalidade é explicar o mundo e não simular um acontecimento do mundo, seu escopo é permeado de palavras abstratas. O texto trabalha com as transformações tanto evidentes como implícitas. O texto dissertativo tem o intuito de apresentar verdades válidas universais. O tempo verbal mais utilizado é o presente atemporal.
            Desta forma o autor José Luiz Fiorin, deixa-nos claro os motivos da existência dessas três maneiras de organização do discurso, evidenciadas pelo fato de existirem essas três possibilidades de apreender a realidade: Onde a partir da descrição é possível construir uma imagem que não se modifica ao longo do tempo (do texto), pela narração é possível criar uma imagem simulada da ação em transformação, da transformação do próprio homem ao longo do tempo e enfim pela dissertação é possível estabelecer relações subjetivas de causa e efeito validas universalmente. Desta forma descrever, narrar e dissertar, correspondem as ações de observar, analisar e compreender e por fim ressignificar.



[i] Acadêmica do 1º período do curso de Letras, da Universidade Cruzeira do Sul. Resenha elaborada para aprofundamento do conteúdo de modos de organização do discurso, conteúdo da disciplina de Leitura e produção de texto, sob a orientação da professora Helba Carvalho.

Texto

MODOS DE ORGANIZAÇÃO DO DISCURSO: A NARRAÇÃO, A DESCRIÇÃO E A DISSERTAÇÃO.

José Luiz Fiorin
Professor de Linguística na USP

Nossa escola continuamente trabalha com a descrição, a narração e a dissertação, embora nem sempre tenha a preocupação de mostrar claramente aos alunos os princípios que regem esses três modos de organização do discurso. Muitas vezes, aliás, confunde, nas instruções para redação, o que é do domínio narrativo com o que é do âmbito descritivo. Quando diz, por exemplo, “conte como é o por-do-sol numa praia” ou “descreva suas férias”, está contribuindo para que os alunos não entendam essas três maneiras de composição do discurso.
O primeiro princípio que temos de ter em mente, ao abordar essa questão, é que os textos podem ser heterogêneos do ponto de vista da organização discursiva, ou seja, podem ser compostos de descrição, narração e dissertação; descrição e narração; etc. Isso significa que essas três categorias são modos diferentes de organização do discurso, que correspondem a finalidades distintas, e não propriamente a tipos de texto. É difícil encontrar um texto que seja só descritivo, apenas narrativo, somente dissertativo. No entanto, a escola, embora não consiga explicar, com clareza, esses modos de organização, exige, nos exercícios, o artificialismo da descrição homogenia, da narração pura, da dissertação sem mistura.
Passemos a discussão dos princípios gerais que governam esses modos de organização discursiva. Em função das dimensões deste texto, não trataremos dessas maneiras de arranjo discursivo em detalhe. Pretendemos apenas analisar os elementos mais abrangentes que singularizam cada um deles.
Começamos por distinguir narratividade de narração. Narratividade é um nível mais abstrato de organização do discurso e, implícita ou explicitamente, está presente em todos os textos, sejam eles narrativos, descritivos ou dissertativos. Que é, então essa narratividade? É qualquer transformação de estado, isto é, a mudança de um estado inicial para um estado final. Em ouviu-se de repente um grande barulho”, temos a passagem de um estado de silêncio a um de ruído, ou seja, uma transformação de estado. Num texto dissertativo, também há transformações. Por isso, tem também um componente narrativo. Vejamos, por exemplo, o seguinte texto:
O estudo mais aprofundado dos mecanismos de participação nos lucros leva à conclusão de que é um instrumento de valor duvidoso e de que boa parte dos programas já implementados foram desativados ou não funcionam bem. (Ricardo SEMLER, virando a própria mesa, São Paulo, Best Seller, 1988, p.138.).

Temos aqui a passagem de um estado de crença no bom funcionamento dos mecanismos de participação nos lucros a um estado de saber sobre seu funcionamento precário. Essa transformação foi operada por estudos mais aprofundados. Verifica-se, pois, que os três modos de organização do discurso se assentam sobre transformações implícitas ou explicitas de estado, isto é, sobre um componente narrativo.
Outro aspecto que deve ser analisado é o que chamamos de tematização e figurativização. Observemos os dois textos a seguir:
Certa vez um leão e um gato do mato puseram-se de acordo para caçar as lebres da floresta. Quando estas tomaram conhecimento do trato feito por eles, fugiram. O gato, no entanto, permaneceu lá. Como o leão não tinha o que caçar, devorou o gato.

Num pacto entre partes desiguais, a parte mais fraca sempre sai prejudicada.

Os dois textos querem dizer basicamente a mesma coisa. No entanto, são totalmente diferentes. Onde reside essa distinção entre eles? O primeiro é composto basicamente de palavras concretas; o segundo, predominantemente de termos abstratos.

Paremos um momento para analisar o que é um vocábulo concreto e um abstrato. Concreta é a palavra que remete a algo existente no mundo natural (por exemplo, árvore, menino, bola). Abstrato é o termo que não remete a algo presente no mundo natural, mas expressa uma categoria que engloba o que nele existe (por exemplo, cólera não é algo efetivamente presente no mundo natural, mas um termo que serve para categorizar o estado em que uma pessoa grita, dá murros na mesa, fica vermelha, avança sobre outrem etc.) Isso nos leva a conclusão de que concreto e abstrato não são subcategorizações apenas dos substantivos, mas de todas as palavras lexicais (substantivos, verbos e determinados advérbios). Observamos os exemplos a seguir:

Abstratos
Concretos
Nervosismo
Fumar um cigarro atrás do outro; Não conseguir ler um texto, etc.
Inteligente
Entender com uma só explicação
Envergonhar-se
Enrubescer, etc.
Corruptamente
Recebendo dinheiro em troca de favores ilícitos, etc.

“Nervosismo”, “inteligente”, “envergonhar-se” e corruptamente são categorias que abarcam os dados concretos citados. Por sua vez, um verbo como “atirar”, um adjetivo como “vermelho” e um advérbio como “apressadamente” são concretos, já que remetem a algo efetivamente existente no mundo natural.
Alguém poderia dizer que essa conceituação esta eivada de um empirismo grosseiro, já que fala em remeter ou não ao mundo natural. A objeção continuaria com a afirmação de que há termos como “fada”, que não remetem a algo efetivamente existente no mundo natural. Antes que a confusão continue a avolumar-se, vamos esclarecer a questão. Concreto e Abstrato são categorias linguísticas e não categorias da realidade. Por isso não são atestações da existência ou não de determinado ser, mas são efeitos de sentido de existência ou não num dado universo de discurso. Assim, “mundo natural” é qualquer mundo criado pelo discurso, qualquer realidade constituída pela linguagem. “Deus” é substantivo concreto, porque é considerado um ser verdadeiramente existente no universo criado pelo discurso religioso; “fada” é um substantivo concreto, porque é um ser tido como existente na realidade constituída pelo conto maravilhoso.
Muitas vezes, ensina-se na escola o que é nome concreto e abstrato e não se diz ao aluno qual é a funcionalidade dessa categoria. Na verdade ela comporta os dois modos básicos de construção do discurso. Temos, pois, dois tipos de discurso: os constituídos preponderantemente, e não exclusivamente, de vocábulos concretos e os compostos predominantemente, e não apenas de termos abstratos. Os primeiros serão denominados discursos figurativos e os segundos, discursos temáticos. O texto que fala do pacto entre o leão e o gato do mato, é um texto figurativo; o texto que diz que, num pacto entre partes desiguais, a mais fraca sempre sai prejudicada é temático.
Temos dois tipos distintos de discurso porque o discurso figurativo tem a finalidade de criar um simulacro do mundo, representando-o no interior da linguagem, enquanto o temático se destina a explicar os dados da realidade. Em Senhora de ALENCAR, simulan-se ações do homem no mundo: o casamento por interesse etc. Trata-se, pois, de um texto figurativo. Numa tese acadêmica em que se discutisse a reificação das relações humanas na sociedade capitalista, construir-se-ia um discurso temático. Cabe lembrar no entanto que, como tematização e figurativização são dois níveis de concretização do discurso, sob todo texto figurativo há um componente temático (um ou mais temas) que o leitor precisa encontrar para entende-lo. Assim sob o simulacro das relações amorosas de Seixas e Aurélia, um dos temas é exatamente a reificação das relações amorosas na sociedade capitalista nascente no Brasil.
De posse dos conceitos de narratividade, tematização e figurativização, podemos começar a estudar os princípios que rege a descrição, a narração e a dissertação. Começamos com a descrição. Leiamos o texto seguinte:
Entretanto via-se à margem direita do rio uma casa larga e espaçosa, construída sobre uma eminência e protegida de todos os lados por uma muralha de rocha cortada a pique.
A esplanada, sobre que estava assentado o edifício, formava um semicírculo irregular que teria quando muito cinquenta braças quadradas; do lado do norte havia uma espécie de escada de lajedo feita metade pela natureza e metade pela arte.
Descendo dois ou três degraus de pedra da escada, encontrava-se uma ponte de madeira solidamente construída sobre uma fenda larga e profunda que se abria na rocha. Continuando a descer, chegava-se à beira do rio, que se curvava em seio gracioso, sombreado pelas grandes gameleiras e angelus que cresciam ao longo das margens.
Aí, ainda a indústria do homem tinha aproveitado habilmente a natureza para criar meios de segurança e defesa.
De um lado e outro da escada seguiam dois renques de árvores que alargando gradualmente, iam fechar como dois braços o seio do rio; entre o tronco dessas árvores, uma alta cerca de espinhos tornava aquele pequeno vale impenetrável.
A casa era edificada com a arquitetura simples e grosseira, que ainda apresentam as nossas primitivas habitações; tinha cinco janelas de frente, baixas, largas, quase quadradas.
Do lado direito, estava a porta principal do edifício que dava sobre um pátio cercado por uma estacada, coberta de melões agrestes. Do lado esquerdo estendia-se até a borda da esplanada uma casa do edifício, que abria duas janelas sobre o desfiladeiro da rocha.
No ângulo que esta asa fazia com o resto da casa, havia uma coisa que chamaremos jardim, e de fato era uma imitação graciosa de toda a natureza rica, vigorosa e esplêndida, que a vista abraçava do alto rochedo.
Flores agrestes das nossas matas, pequenas árvores copadas, um estendal de relvas, um fio d’água fingindo ser um rio e formando uma pequena cascata, tudo isso a mão do homem tinha criado no pequeno espaço com uma arte e graça admirável. (José de ALENCAR, O Guarani, São Paulo, Saraiva, 1968, p. 2-3).
As características do modo de organização descritiva são as seguintes:
É um texto figurativo, pois a descrição destina-se a identificar os seres do mundo natural (ou melhor, a fazê-los existir na medida em que o discurso é que constitui mundos), nomeando-os, localizando-os e atribuindo-lhes qualidades que os singularizam. Nesse texto, usam-se termos concretos (como rio, casa, larga, esplanada, descer, degraus) para criar o cenário onde vai ocorrer a ação de O Guarani.
O componente narrativo é geralmente implícito, isto é, a descrição, de maneira geral, não explicita transformações. No texto, temos uma transformação implícita: se há uma casa, um jardim, é porque foram construídos, o que significa que ai se deu uma passagem do estado “não construído” para o estado “construído”. No entanto essa transformação é apenas pressuposta logicamente pelo leitor e não desenvolvida no texto. Se fosse explicitada, teríamos a narração da construção da casa. Como só temos o estado final resultante da ação de construir, temos uma descrição. Assim, a descrição, habitualmente, mostra o estado inicial ou final e deixa pressuposta a transformação de um e outro.

Como a descrição mostra estados, muitos textos começam com um trecho descritivo, que apresenta o estado inicial que será transformado, e passam para o modo de organização narrativa, situando-os no tempo e num espaço determinados. Para exemplificar essa combinação de organização descritiva e narrativa num mesmo texto, leiamos o seguinte exemplo:

O urutau no fundo da mata solta as suas notas graves e sonoras, que reboando pelas longas crastas de verdura, vão ecoar ao longe como o toque lento e pausado do ângelus.

A brisa, roçando as grimas da floresta, traz um débil sussurro, que parece o ultimo eco dos rumores do dia, ou derradeiro suspiro da tarde que morre.

Todas as pessoas reunidas na esplanada sentiam mais ou menos impressão poderosa desta hora solene, e cediam involuntariamente a esse sentimento vago, que não é bem tristeza, mas respeito misturado de um certo temor.

De repente, os sons melancólicos de um clarim prolongaram-se pelo ar quebrando o concerto da tarde; era um dos aventureiros que tocava Ave Maria.

Todos se descobriram.

D. Antonio de Mariz, adiantando-se até a beira da esplanada para o lado do ocaso, tirou o chapéu e ajoelhou. (José de ALENCAR, op. Cit., p.39-40.).

Temos descrição quando se fala do canto do urutau, do sussuro da brisa e dos sentimentos das pessoas, porque não se focaliza a passagem do silencio para o canto do urutau, da ausência para a presença da brisa etc. Quando o texto volta a atenção para as transformações (o toque do clarim, o ato de as pessoas se descobrirem, o fato de D. Antonio de Mariz tirar o chapéu e ajoelhar-se), passamos a narração. No caso do toque do clarim, por exemplo, enfoca-se a transformação, porque o texto explicita que, num dado momento, passa-se da ausência para a presença da musica do clarim.

Em alguns casos, pode aparecer alguma transformação no meio de uma descrição. Vejamos o seguinte exemplo:

De um dos cabeços da Serra dos Órãos desliza um fio d’água que se dirige para o norte, e engrossado com os fios mananciais, que recebe no seu curso de dez léguas, torna-se rio cauda!

É o Paquequer saltando de cascata em cascata, enroscando-se como uma serpente, vai depois se espreguiçar na várzea e embeber na Paraíba, que rola majestosamente em seu vasto leito.

Dir-se-ia que vassalo e tributário desse rei das águas, o pequeno rio, altivo e sobranceiro contra os rochedos, curva-se humildemente aos pés do suserano. Perde então a beleza selvática; suas ondas são calmas e serenas como as de um lago, e não se revoltam contra os barcos e as canoas que resvalam sobre elas: escravo submisso, sofre o látego do senhor. (José de ALENCAR, op. Cit.,p.1.).

Poder-se-ia dizer que o texto torna explicitas algumas transformações: mudanças do fio d’água em rio caudaloso, passagem da velocidade para a lentidão do curso etc. Nesse caso, temos narração ou descrição? Ainda aqui temos descrição, pois o que se focaliza não é a transformação propriamente dita, mas dois estados sucessivos, duas qualificações que singuralizam o Paquequer. Poder-se-ia afirmar que é fácil identificar um texto descritivo, quando a transformação está implícita, mas que não é tão evidente a distinção entre narração e descrição quando ambas apresentam transformações. Cabe lembrar, em primeiro lugar, que a narração sempre explicita alterações de estado, enquanto a descrição apenas em alguns casos. A diferença esta no fato de que, enquanto a narração evidencia a transformação propriamente dita, a descrição privilegia o enfoque dos dois estados , o anterior e o posterior à transformação. Mas como reconhecer se o foco incide nos estados ou na transformação? Para isso, é preciso levar em conta as duas outras características do modo de organização descritiva do discurso.

Como a descrição volta sua atenção para os estados e não para as transformações, ela não leva em conta a sucessão dos acontecimentos, mas considera o que esta sendo descrito como que fora do tempo. Por isso, os tempos verbais mais utilizados na descrição são imperfectivos: o presente e o pretérito imperfeito. Eles não indicam uma progressão da ação e, portanto, uma sucessão, pois falam do não acabado. O presente indica simultaneidade em relação a um marco temporal pretérito inscrito no texto. Por exemplo:

Agora não bebo mais. (O ato de beber é concomitante com o momento da fala.);

Em dezembro de 1989, caia na Romênia o regime Ceausescu. (O cair é concomitante com o marco temporal pretérito “dezembro de 1989” instalado no texto.).

Voltemos ao primeiro trecho contido no item b. Como o canto do urutau e o  sussurrar da brisa são sempre vistos como sempre concomitantes com a hora de ângelus (e sempre abarcam, portanto, o momento da enunciação), usa-se o presente para expô-los. Já o sentimento das pessoas é considerado particular àquela determinada Ave-Maria, ocorrida num certo dia do passado. No entanto, é apresentado não na sucessão dos acontecimentos (portanto, como algo acabado), mas como um estado em duração (por conseguinte, como algo não acabado). Então, emprega-se o pretérito imperfeito para expressá-lo.

A descrição como que congela o tempo, para mostrar os seres do mundo em sua existência e não em seu devenir.

d) como a descrição identifica os seres e mostra suas qualidades sem estabelecer entre eles relação de causalidade, a ordem dos elementos do texto pode ser permuta sem qualquer prejuízo para a compreensão. Sobre isso diz o poeta Paul VALERY:

“Toda a descrição reduz-se à enumeração das partes e dos aspectos de uma coisa vista, e esse inventario pode ser disposto em qualquer ordem, o que introduz em sua execução uma espécie de acaso”.

Por exemplo, observamos o seguinte parágrafo descritivo:

Cadeiras de couro de alto espaldar, uma mesa de jacarandá de pés torneados, uma lâmpada de prata suspensa ao teto, constituíam a mobília da sala, que respirava um ar severo e triste. (José de ALENCAR, op.cit,.p.4.).

Poderíamos fazer as seguintes permutações sem alterar a compreensão do texto.

Em síntese, a descrição é regida pelos seguintes princípios:

ü  Focaliza estados e não transformações;
ü  Seu discurso é figurativo;
ü  Os tempos verbais nela privilegiados são o presente e o pretérito imperfeito;
ü  Seus elementos não mantêm uma relação de causalidade e, por isso, podem ser permutados sem afetar a compreensão do texto.

Passemos agora a narração. Observemos o texto a seguir:

Tragédia brasileira

Misael, funcionário da fazenda, com 63 anos de idade.

Conheceu Maria Elvira na Lapa – prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de misericórdia.

Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo quanto ela queria.

Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.

Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa.

Viveram três anos assim.

Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.

Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bom Sucesso, Vila Izabel, Rua Marques de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos...

Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e a policia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul. (Manoel BANDEIRA, Estrela da Vida Inteira, 4 ed., Rio de Janeiro, J. Olympio, 1973, p.146-7.).

A narração é governada pelos seguintes princípios:

a)      O texto é figurativo. No exemplo anterior, trabalha-se com termos concretos (Misael, Maria Elvira, Sífilis, namorado, mudar de casa etc.) para criar um simulacro da ação do homem no mundo e, assim, dar-lhe sentido.

b)      A narração focaliza as transformações de estado. Essas transformações estão correlacionadas entre si por uma relação de solidariedade, ou seja, uma pressupõe a outra. Isso significa que as ações relatadas tem uma finalidade, que dá sentido a cada uma das transformações. No texto, temos por exemplo as seguintes relações de pressuposição: Misael e Maria Elvira mudam de casa porque Maria Elvira arranja um namorado; faz isso porque está de “boca bonita”; etc. O que dá sentido a ação de Misael de matar Maria Elvira são acontecimentos anteriores. Cada ação sucede-se linear e consecutivamente à outra, cada uma constitui o motivo que determina a seguinte.

c)      Essas ações que se pressupões são apresentadas como uma sucessão no tempo. Por isso, ganha relevo na narração de anterioridade e de posterioridade. Por essa razão, os tempos centrais da narração são os perfectivos: pretérito perfeito, pretérito mais que perfeito etc. Podemos observar que a maioria dos tempos verbais utilizados no texto acima é do pretérito perfeito.

d)     Se a relação mais relevante na narração é de anterioridade e posterioridade, nela há uma progressão dos acontecimentos. Por conseguinte, um acontecimento anterior não pode transformar-se em posterior, sem que se altere radicalmente a compreensão do texto. Se mudássemos a célebre frase de César “Vim, vi, venci” para “Venci, vim e vi”, poderíamos dizer que enquanto na primeira formulação, ele venceu no lugar para onde veio, na segunda, venceu num dado lugar e depois veio para outro.

Em síntese a narração é regida pelos seguintes princípios

·         Focaliza transformações, que se pressupõem umas as outras;
·         Seu discurso é figurativo;
·         Os tempos verbais fundamentais da narrativa são os perfectivos;
·         Os acontecimentos narrados mantêm uma relação de anterioridade e posterioridade e essa relação não pode ser alterada sem que se afete a compreensão do texto.

Voltemo-nos agora para os princípios que governam a dissertação. Tomemos como exemplo o seguinte texto:

Nazismo sem bala

É fato comum na história dos povos que formas dessubstancializadas sirvam, como cascas vazias, de habitação para discursos e práticas inteiramente novos, cujo alcance e sentido não raro colidem com os originais. Talvez se o neonazismo se nos apresente como mais um caso, uma vez que seu fundamento material, psicológico e existencial difere radicalmente daqueles em que se apoiou o movimento nazista, ainda que os “skinheads” adotem como símbolo a suástica, como ídolo, Hitler, e como doutrina, a tese do espaço vital... (...)

O neonazismo assume integralmente o que o liberalismo não diz, mas pratica com reservas. E ai encontra-se o primeiro traço distintivo fundamental entre nazismo e neonazismo. Se o primeiro é o sintoma da “pobreza” (alemã) em meio a afluência, o segundo é o sintoma da afluência (europeia) em meio à pobreza. Disso decorre a diferença entre as concepções nazista e o neonazista de espaço vital: o conceito nazista implica a delimitação do espaço vital e, nesse sentido, ele é simplesmente excludente. O neonazismo, em contraponto ao nazismo, pretende mais preservar o igual do que eliminar o diferente, por mais sutil que possa parecer essa distinção.

Uma consequência marcante disso tudo é que o neonazismo dispensa a figura do líder carismático. A mera delimitação do espaço vital e a preservação do igual podem ser feitas de forma dispersa e, em grande parte, anônima. O neonazismo é ainda mais covarde que o nazismo. A ausência do Fuhrer (não me venham comparar Hitler com Le Pen) insere o neonazismo num outro registro. A estatização da dimensão estética promovida pelo estetizar do estado, causando impacto num pensador como Heidegger e, num sentido particular, até em Bataille. O neonazismo, ao contrário, é mais moderno, mais técnico, mais mesquinho e, por isso, mais “in-ofensivo”. Ele não deverá provocar a morte de 60 milhões de seres humanos a bala. Sua defesa intransigente da ordem econômica vigente poderá provocar a morte de um número ainda maior de pessoas, mas de fome.

Por fim, gostaríamos de salientar que o neonazismo não é nem será um fenômeno simplesmente alemão. Ele existirá onde quer que populações relativamente abastadas convivam com a pobreza “etnicamente” delimitável, seja em São Paulo ou Berlim. (Fernando HADDAD, Folha de São Paulo, 27 de Jun. 1993).

Vemos que esse modo de organização discursiva apresenta as seguintes características:

a)      É temático, uma vez que sua finalidade é explicar o mundo e não criar um simulacro dele. O texto de Haddad opera predominantemente com palavras abstratas (formas dessubstancializadas, alcance, sentido, fundamento material, psicológico, existencial etc.) para explicar as ações dos “cabeças raspadas” contra os imigrantes estrangeiros na Alemanha.

b)      Trabalha com as transformações implícitas ou explicitas. No texto a que nos referimos, temos implicitamente a transformação do nazismo em neonazismo com todas as consequências que isso acarreta: por exemplo, alteração da tese do espaço vital, que passa de englobante para excludente. Por outro lado, explicitam-se outras mudanças: por exemplo, a passagem do estado de ter para o de não ter um líder carismático, passagem da vida para a morte para milhões de pessoas.

c)      Como a dissertação pretende enunciar verdades válidas para todos os tempos e todos os lugares, o tempo verbal mais utilizado nela é o presente atemporal. HADDAD utiliza a maioria absoluta dos verbos no presente. É o presente que cria o efeito de sentido de atemporalidade e de universalidade das explicações sobre os fenômenos do mundo dadas pela dissertação.

d)     Como a dissertação pretende explicar o mundo, as asserções feitas a respeito dele mantêm entre si relações lógicas: causa, consequência, condicionalidade etc. Essas relações são basicamente de causalidade. Por exemplo, na causalidade propriamente dita (A porque B), B é causa de A; na consequência de (A então B), A é a causa de B; na condição (se A, então B), A é causa de B no nível das hipóteses. Como as asserções mantêm uma relação de causalidade, sua ordem não é casual. Se tornarmos uma causa consequência, alteraremos profundamente a compreensão do texto. No exemplo citado, encontramos um enorme conjunto de relações implícitas ou explicitas de causalidade: porque o nazismo é sintoma de pobreza (alemã) em meio a afluência, seu conceito de espaço vital implica expansão; porque o conceito neonazista de espaço vital é excludente, pretende mais preservar o igual do que eliminar o diferente; etc.

Em síntese, as características da dissertação são:

·         Opera com transformações explicitas ou implícitas;
·         Seu discurso é temático;
·         Nela o tempo verbal mais usado é o presente atemporal;
·         Suas asserções mantêm entre si lógicas do tipo causa, consequência, condição etc.

Existem três modos de organizar o discurso porque há três maneiras de aprender a realidade identificar e analisar as qualificações dos seres; testemunhar a ação do homem no mundo, dando-lhe um sentido; explicar os liames causais entre os acontecimentos. A primeira constrói uma imagem intemporal do mundo; a segunda engendra um simulacro da ação transformadora do homem ao longo do tempo; a terceira estabelece relações abstratas de causa e efeito, válidas para todos os tempos e lugares, entre os acontecimentos. Descrever, narrar e dissertar são modos de organização discursiva que correspondem, respectivamente, às operações de identificar e qualificar, de simular transformações e de demonstrar relações.

Referências

BARROS, Diana da Luz Pessoa de. Teoria semiótica do texto. São Paulo: Ática, 1990.
BENVENISTE, E. Problemas de linguística geral. São Paulo: Nacional, 1976.
FIORIN, José Luiz. Elementos de analise do discurso. São Paulo: Contexto/EDUSP, 1989.
FIORIN, José Luiz, SAVIOLI, Francisco Platão. Para entender o texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 1990.
GREIMAS, A.J. Maupassant – La sémiotique du texte: exercices pratiques. Paris: Seuil, 1976.
GREIMAS, A.J., COURTES, J. Sémiotique: dictionnaire raisonné de La théorie Du langage. Paris: Hachette, 1979.

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