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José Luiz Fiorin
RESENHA: Modos de organização do discurso.
Roberta
Galdino[i]
José
Luiz Fiorin é professor e linguista brasileiro. Um dos maiores especialistas
brasileiros em Pragmática, Semiótica e Análise do Discurso, com centenas de
publicações nessas áreas. Graduado em Letras pela Faculdade de
Filosofia Ciências e Letras de Penápolis (1970),
defendeu mestrado em
Linguística pela Universidade de São Paulo (1980)
e doutorado em
Linguística pela Universidade de São Paulo (1983). Fez pós-doutorado na École des Hautes Etudes en Sciences
Sociales, (Paris, França),
(1983-1984) e na Universidade de Bucareste,
(Bucareste, Romênia),
(1991-1992). Atualmente é Professor Associado do Departamento de Linguística da
FFLCH da Universidade de São Paulo. Foi membro do Conselho Deliberativo do CNPq (2000-2004)
e Representante da Área de Letras e Linguística na CAPES (1995-1999).
Tem experiência na área de Linguística, com ênfase em Teoria e Análise
Linguística, atua principalmente nos seguintes temas: enunciação, estratégias
discursivas, procedimentos de constituição do
sentido do discurso e
do texto,
produção dos discursos sociais verbais.
O texto “Modos de organização do
discurso: A narração, a descrição e a dissertação”, divide-se implicitamente
em: introdução dos princípios gerais, do modo de organização do discurso, além
de explicações das especificidades e singularidades de cada um deles.
A princípio o autor explicita-nos os
três modos de organização do discurso (Narração, descrição e dissertação), como
sendo os mais comumente trabalhados pela escola, ao passo que critica a maneira
como a escola explana a explicação da organização do discurso, sendo esta
explicação de maneira mecânica e descontextualizada, o que segundo o autor
muitas vezes acaba por confundir o discente em relação às instruções para a
produção textual. A escola com base em uma educação tradicionalista trata os
modos de organização do discurso de maneira homogenia, exigindo em seus
exercícios de produção textual, por exemplo, a narração pura, a dissertação sem
mistura, o que torna a produção textual artificial, uma vez que contextualmente
os textos tendem a combinar várias formas de organização do discurso. Assim,
com base na heterogeneidade textual o autor expõe o primeiro conceito de
organização do discurso.
No texto Fiorin, discorre-nos sobre
a diferenciação de narração e narratividade, sendo esta ultima uma organização
abstrata dentro do discurso, segundo o autor este tipo de componente narrativo,
está presente em todos os textos, seja de maneira evidente ou entre linhas.
Explica a narratividade como sendo uma transformação de estado (a mudança de um
estado inicial para um estado final).
O autor analisa em seu texto outros
aspectos importantes de categorias do discurso, como figurativização (tipo de
discurso organizado em sua maioria por vocábulos concretos), cuja finalidade é
criar uma simulação do mundo (acontecimento real). E a tematização (onde a
organização do discurso se dá por termos abstratos) e cujo objetivo é explicar
os dados da realidade. Assim Fiorin explica-nos que a figurativização e a
tematização são dois níveis de concretização do discurso, e que sob todo texto
figurativo há um componente temático, o qual o leitor precisa interpretar para
realmente compreender o texto.
Posteriormente a evidenciação dos
conceitos de narratividade, figurativização e tematização, o autor passa a
explicitar-nos as características e especificidades da descrição: Este, segundo
o autor, é um texto figurativo (simulacro do mundo), cujo intuito é criar a
existência dos seres do mundo natural (seja qual for este mundo, criado pelo
texto), nomeando-lhes características e qualidades que os tornam únicos,
criando-se assim o cenário onde ocorre a ação. O componente narrativo é
organizado entre linhas, ou seja, de uma maneira geral o texto descritivo não
apresenta situações de transformações evidentes, o conceito é implícito. Desta
maneira segundo o autor a descrição explicita somente o estado inicial ou
final, deixando pressuposto à transformação de um estado para outro. Assim como
o texto descritivo mostra estados inexoráveis, muitos textos começam com um
trecho descritivo e passa para o modo de organização narrativa, estabelecendo a
transformação de um estado a outro, desta maneira Fiorin explica-nos como a
descrição dá sentido a narração, ao passo que qualifica e, portanto singulariza
os atores da narrativa, localizando-os no tempo e espaço. Neste trecho do texto
o autor deixa-nos claro a função narrativa que é evidenciar a transformação de
um estado para outro, enquanto que a descrição focaliza apenas o estado, seja
ele inicial ou final.
Para diferenciar um texto descritivo
de um narrativo o leitor deve-se ater que a narração sempre explicita
alterações de estados, enquanto que a descrição privilegia o enfoque dos dois
estados o anterior e o posterior à transformação.
Para evidenciar o conceito de
narratividade, tematização e figurativização, Fiorin, discorre-nos em seu texto
as características pertinentes a cada modo de organização do discurso.
Iniciando pela organização descritiva: É um texto figurativo, pois a partir de
termos concretos cria-se um ser do mundo natural denotando-lhes especificidades
e localizando-lhes o que os tornam realidade do ponto de vista textual. O
componente narrativo é implícito, observa-se no texto descritivo apenas a
suposição de algo transformado, porém o foco é sempre no estado inicial ou
final. Em um texto descritivo não se leva em conta a sucessão dos
acontecimentos, logo a ordem da descrição não altera o entendimento geral do
texto. Os tempos verbais utilizados são o presente e o pretérito imperfeito.
Já na organização narrativa o autor
explicita-nos os seguintes princípios: O texto é figurativo já que é permeado
de termos concretos. Porém na narração o foco é para as transformações de
estado, onde as ações relatadas tem uma finalidade, uma explicação que dá
sentido a transformação. Tais ações são apresentadas como uma sucessão no
tempo, logo os tempos centrais da narração são os perfectivos: Pretérito
perfeito, pretérito mais que perfeito etc. A narração segue uma ordem
cronológica não sendo possível muda-las, por exemplo, uma ação anterior não
pode mudar para posterior e vice versa sem afetar radicalmente o sentido do
texto.
No texto dissertativo Fiorin,
explicita-nos como sendo um texto temático, cuja finalidade é explicar o mundo
e não simular um acontecimento do mundo, seu escopo é permeado de palavras
abstratas. O texto trabalha com as transformações tanto evidentes como
implícitas. O texto dissertativo tem o intuito de apresentar verdades válidas
universais. O tempo verbal mais utilizado é o presente atemporal.
Desta forma o autor José Luiz
Fiorin, deixa-nos claro os motivos da existência dessas três maneiras de
organização do discurso, evidenciadas pelo fato de existirem essas três
possibilidades de apreender a realidade: Onde a partir da descrição é possível
construir uma imagem que não se modifica ao longo do tempo (do texto), pela narração
é possível criar uma imagem simulada da ação em transformação, da transformação
do próprio homem ao longo do tempo e enfim pela dissertação é possível
estabelecer relações subjetivas de causa e efeito validas universalmente. Desta
forma descrever, narrar e dissertar, correspondem as ações de observar,
analisar e compreender e por fim ressignificar.
[i]
Acadêmica do 1º período do
curso de Letras, da Universidade Cruzeira do Sul. Resenha elaborada para
aprofundamento do conteúdo de modos de organização do discurso, conteúdo da
disciplina de Leitura e produção de texto, sob a orientação da professora Helba
Carvalho.
Texto
MODOS DE ORGANIZAÇÃO DO
DISCURSO: A NARRAÇÃO, A DESCRIÇÃO E A DISSERTAÇÃO.
José Luiz Fiorin
Professor de Linguística na USP
Nossa
escola continuamente trabalha com a descrição, a narração e a dissertação,
embora nem sempre tenha a preocupação de mostrar claramente aos alunos os
princípios que regem esses três modos de organização do discurso. Muitas vezes,
aliás, confunde, nas instruções para redação, o que é do domínio narrativo com
o que é do âmbito descritivo. Quando diz, por exemplo, “conte como é o
por-do-sol numa praia” ou “descreva suas férias”, está contribuindo para que os
alunos não entendam essas três maneiras de composição do discurso.
O
primeiro princípio que temos de ter em mente, ao abordar essa questão, é que os
textos podem ser heterogêneos do ponto de vista da organização discursiva, ou
seja, podem ser compostos de descrição, narração e dissertação; descrição e
narração; etc. Isso significa que essas três categorias são modos diferentes de
organização do discurso, que correspondem a finalidades distintas, e não
propriamente a tipos de texto. É difícil encontrar um texto que seja só
descritivo, apenas narrativo, somente dissertativo. No entanto, a escola,
embora não consiga explicar, com clareza, esses modos de organização, exige,
nos exercícios, o artificialismo da descrição homogenia, da narração pura, da
dissertação sem mistura.
Passemos
a discussão dos princípios gerais que governam esses modos de organização
discursiva. Em função das dimensões deste texto, não trataremos dessas maneiras
de arranjo discursivo em detalhe. Pretendemos apenas analisar os elementos mais
abrangentes que singularizam cada um deles.
Começamos
por distinguir narratividade de narração. Narratividade é um nível mais
abstrato de organização do discurso e, implícita ou explicitamente, está
presente em todos os textos, sejam eles narrativos, descritivos ou
dissertativos. Que é, então essa narratividade? É qualquer transformação de
estado, isto é, a mudança de um estado inicial para um estado final. Em
ouviu-se de repente um grande barulho”, temos a passagem de um estado de
silêncio a um de ruído, ou seja, uma transformação de estado. Num texto
dissertativo, também há transformações. Por isso, tem também um componente
narrativo. Vejamos, por exemplo, o seguinte texto:
O
estudo mais aprofundado dos mecanismos de participação nos lucros leva à
conclusão de que é um instrumento de valor duvidoso e de que boa parte dos
programas já implementados foram desativados ou não funcionam bem. (Ricardo
SEMLER, virando a própria mesa, São Paulo, Best Seller, 1988, p.138.).
Temos
aqui a passagem de um estado de crença no bom funcionamento dos mecanismos de
participação nos lucros a um estado de saber sobre seu funcionamento precário.
Essa transformação foi operada por estudos mais aprofundados. Verifica-se,
pois, que os três modos de organização do discurso se assentam sobre
transformações implícitas ou explicitas de estado, isto é, sobre um componente
narrativo.
Outro
aspecto que deve ser analisado é o que chamamos de tematização e
figurativização. Observemos os dois textos a seguir:
Certa vez um leão e um gato do mato
puseram-se de acordo para caçar as lebres da floresta. Quando estas tomaram
conhecimento do trato feito por eles, fugiram. O gato, no entanto, permaneceu
lá. Como o leão não tinha o que caçar, devorou o gato.
Num pacto entre partes desiguais, a parte
mais fraca sempre sai prejudicada.
Os dois textos querem dizer basicamente a
mesma coisa. No entanto, são totalmente diferentes. Onde reside essa distinção
entre eles? O primeiro é composto basicamente de palavras concretas; o segundo,
predominantemente de termos abstratos.
Paremos um momento para analisar o que é um
vocábulo concreto e um abstrato. Concreta é a palavra que remete a algo
existente no mundo natural (por exemplo, árvore, menino, bola). Abstrato é o termo
que não remete a algo presente no mundo natural, mas expressa uma categoria que
engloba o que nele existe (por exemplo, cólera não é algo efetivamente presente
no mundo natural, mas um termo que serve para categorizar o estado em que uma
pessoa grita, dá murros na mesa, fica vermelha, avança sobre outrem etc.) Isso
nos leva a conclusão de que concreto e abstrato não são subcategorizações
apenas dos substantivos, mas de todas as palavras lexicais (substantivos,
verbos e determinados advérbios). Observamos os exemplos a seguir:
|
Abstratos
|
Concretos
|
|
Nervosismo
|
Fumar um cigarro atrás do outro; Não conseguir
ler um texto, etc.
|
|
Inteligente
|
Entender com uma só explicação
|
|
Envergonhar-se
|
Enrubescer, etc.
|
|
Corruptamente
|
Recebendo dinheiro em troca de favores ilícitos,
etc.
|
“Nervosismo”,
“inteligente”, “envergonhar-se” e corruptamente são categorias que abarcam os
dados concretos citados. Por sua vez, um verbo como “atirar”, um adjetivo como
“vermelho” e um advérbio como “apressadamente” são concretos, já que remetem a
algo efetivamente existente no mundo natural.
Alguém
poderia dizer que essa conceituação esta eivada de um empirismo grosseiro, já
que fala em remeter ou não ao mundo natural. A objeção continuaria com a
afirmação de que há termos como “fada”, que não remetem a algo efetivamente
existente no mundo natural. Antes que a confusão continue a avolumar-se, vamos
esclarecer a questão. Concreto e Abstrato são categorias linguísticas e não
categorias da realidade. Por isso não são atestações da existência ou não de
determinado ser, mas são efeitos de sentido de existência ou não num dado
universo de discurso. Assim, “mundo natural” é qualquer mundo criado pelo
discurso, qualquer realidade constituída pela linguagem. “Deus” é substantivo
concreto, porque é considerado um ser verdadeiramente existente no universo
criado pelo discurso religioso; “fada” é um substantivo concreto, porque é um
ser tido como existente na realidade constituída pelo conto maravilhoso.
Muitas
vezes, ensina-se na escola o que é nome concreto e abstrato e não se diz ao
aluno qual é a funcionalidade dessa categoria. Na verdade ela comporta os dois
modos básicos de construção do discurso. Temos, pois, dois tipos de discurso:
os constituídos preponderantemente, e não exclusivamente, de vocábulos
concretos e os compostos predominantemente, e não apenas de termos abstratos.
Os primeiros serão denominados discursos figurativos e os segundos, discursos
temáticos. O texto que fala do pacto entre o leão e o gato do mato, é um texto
figurativo; o texto que diz que, num pacto entre partes desiguais, a mais fraca
sempre sai prejudicada é temático.
Temos
dois tipos distintos de discurso porque o discurso figurativo tem a finalidade
de criar um simulacro do mundo, representando-o no interior da linguagem,
enquanto o temático se destina a explicar os dados da realidade. Em Senhora de
ALENCAR, simulan-se ações do homem no mundo: o casamento por interesse etc.
Trata-se, pois, de um texto figurativo. Numa tese acadêmica em que se discutisse
a reificação das relações humanas na sociedade capitalista, construir-se-ia um
discurso temático. Cabe lembrar no entanto que, como tematização e
figurativização são dois níveis de concretização do discurso, sob todo texto
figurativo há um componente temático (um ou mais temas) que o leitor precisa
encontrar para entende-lo. Assim sob o simulacro das relações amorosas de
Seixas e Aurélia, um dos temas é exatamente a reificação das relações amorosas
na sociedade capitalista nascente no Brasil.
De
posse dos conceitos de narratividade, tematização e figurativização, podemos
começar a estudar os princípios que rege a descrição, a narração e a
dissertação. Começamos com a descrição. Leiamos o texto seguinte:
Entretanto
via-se à margem direita do rio uma casa larga e espaçosa, construída sobre uma
eminência e protegida de todos os lados por uma muralha de rocha cortada a
pique.
A
esplanada, sobre que estava assentado o edifício, formava um semicírculo
irregular que teria quando muito cinquenta braças quadradas; do lado do norte
havia uma espécie de escada de lajedo feita metade pela natureza e metade pela
arte.
Descendo
dois ou três degraus de pedra da escada, encontrava-se uma ponte de madeira
solidamente construída sobre uma fenda larga e profunda que se abria na rocha.
Continuando a descer, chegava-se à beira do rio, que se curvava em seio
gracioso, sombreado pelas grandes gameleiras e angelus que cresciam ao longo
das margens.
Aí,
ainda a indústria do homem tinha aproveitado habilmente a natureza para criar
meios de segurança e defesa.
De
um lado e outro da escada seguiam dois renques de árvores que alargando
gradualmente, iam fechar como dois braços o seio do rio; entre o tronco dessas
árvores, uma alta cerca de espinhos tornava aquele pequeno vale impenetrável.
A
casa era edificada com a arquitetura simples e grosseira, que ainda apresentam
as nossas primitivas habitações; tinha cinco janelas de frente, baixas, largas,
quase quadradas.
Do
lado direito, estava a porta principal do edifício que dava sobre um pátio
cercado por uma estacada, coberta de melões agrestes. Do lado esquerdo
estendia-se até a borda da esplanada uma casa do edifício, que abria duas
janelas sobre o desfiladeiro da rocha.
No
ângulo que esta asa fazia com o resto da casa, havia uma coisa que chamaremos
jardim, e de fato era uma imitação graciosa de toda a natureza rica, vigorosa e
esplêndida, que a vista abraçava do alto rochedo.
Flores
agrestes das nossas matas, pequenas árvores copadas, um estendal de relvas, um
fio d’água fingindo ser um rio e formando uma pequena cascata, tudo isso a mão
do homem tinha criado no pequeno espaço com uma arte e graça admirável. (José
de ALENCAR, O Guarani, São Paulo, Saraiva, 1968, p. 2-3).
As
características do modo de organização descritiva são as seguintes:
É um texto figurativo, pois a descrição
destina-se a identificar os seres do mundo natural (ou melhor, a fazê-los
existir na medida em que o discurso é que constitui mundos), nomeando-os,
localizando-os e atribuindo-lhes qualidades que os singularizam. Nesse texto,
usam-se termos concretos (como rio, casa, larga, esplanada, descer, degraus)
para criar o cenário onde vai ocorrer a ação de O Guarani.
O componente narrativo é geralmente
implícito, isto é, a descrição, de maneira geral, não explicita transformações.
No texto, temos uma transformação implícita: se há uma casa, um jardim, é
porque foram construídos, o que significa que ai se deu uma passagem do estado
“não construído” para o estado “construído”. No entanto essa transformação é
apenas pressuposta logicamente pelo leitor e não desenvolvida no texto. Se
fosse explicitada, teríamos a narração da construção da casa. Como só temos o
estado final resultante da ação de construir, temos uma descrição. Assim, a
descrição, habitualmente, mostra o estado inicial ou final e deixa pressuposta
a transformação de um e outro.
Como a descrição mostra estados, muitos
textos começam com um trecho descritivo, que apresenta o estado inicial que
será transformado, e passam para o modo de organização narrativa, situando-os
no tempo e num espaço determinados. Para exemplificar essa combinação de
organização descritiva e narrativa num mesmo texto, leiamos o seguinte exemplo:
O urutau no fundo da mata solta as suas
notas graves e sonoras, que reboando pelas longas crastas de verdura, vão ecoar
ao longe como o toque lento e pausado do ângelus.
A brisa, roçando as grimas da floresta,
traz um débil sussurro, que parece o ultimo eco dos rumores do dia, ou
derradeiro suspiro da tarde que morre.
Todas as pessoas reunidas na esplanada
sentiam mais ou menos impressão poderosa desta hora solene, e cediam
involuntariamente a esse sentimento vago, que não é bem tristeza, mas respeito
misturado de um certo temor.
De repente, os sons melancólicos de um
clarim prolongaram-se pelo ar quebrando o concerto da tarde; era um dos
aventureiros que tocava Ave Maria.
Todos se descobriram.
D. Antonio de Mariz, adiantando-se até a
beira da esplanada para o lado do ocaso, tirou o chapéu e ajoelhou. (José de
ALENCAR, op. Cit., p.39-40.).
Temos descrição quando se fala do canto do
urutau, do sussuro da brisa e dos sentimentos das pessoas, porque não se
focaliza a passagem do silencio para o canto do urutau, da ausência para a
presença da brisa etc. Quando o texto volta a atenção para as transformações (o
toque do clarim, o ato de as pessoas se descobrirem, o fato de D. Antonio de
Mariz tirar o chapéu e ajoelhar-se), passamos a narração. No caso do toque do
clarim, por exemplo, enfoca-se a transformação, porque o texto explicita que,
num dado momento, passa-se da ausência para a presença da musica do clarim.
Em alguns casos, pode aparecer alguma
transformação no meio de uma descrição. Vejamos o seguinte exemplo:
De um dos cabeços da Serra dos Órãos
desliza um fio d’água que se dirige para o norte, e engrossado com os fios
mananciais, que recebe no seu curso de dez léguas, torna-se rio cauda!
É o Paquequer saltando de cascata em
cascata, enroscando-se como uma serpente, vai depois se espreguiçar na várzea e
embeber na Paraíba, que rola majestosamente em seu vasto leito.
Dir-se-ia que vassalo e tributário desse
rei das águas, o pequeno rio, altivo e sobranceiro contra os rochedos, curva-se
humildemente aos pés do suserano. Perde então a beleza selvática; suas ondas
são calmas e serenas como as de um lago, e não se revoltam contra os barcos e
as canoas que resvalam sobre elas: escravo submisso, sofre o látego do senhor.
(José de ALENCAR, op. Cit.,p.1.).
Poder-se-ia dizer que o texto torna
explicitas algumas transformações: mudanças do fio d’água em rio caudaloso,
passagem da velocidade para a lentidão do curso etc. Nesse caso, temos narração
ou descrição? Ainda aqui temos descrição, pois o que se focaliza não é a
transformação propriamente dita, mas dois estados sucessivos, duas
qualificações que singuralizam o Paquequer. Poder-se-ia afirmar que é fácil
identificar um texto descritivo, quando a transformação está implícita, mas que
não é tão evidente a distinção entre narração e descrição quando ambas apresentam
transformações. Cabe lembrar, em primeiro lugar, que a narração sempre
explicita alterações de estado, enquanto a descrição apenas em alguns casos. A
diferença esta no fato de que, enquanto a narração evidencia a transformação
propriamente dita, a descrição privilegia o enfoque dos dois estados , o
anterior e o posterior à transformação. Mas como reconhecer se o foco incide
nos estados ou na transformação? Para isso, é preciso levar em conta as duas
outras características do modo de organização descritiva do discurso.
Como a descrição volta sua atenção para os
estados e não para as transformações, ela não leva em conta a sucessão dos
acontecimentos, mas considera o que esta sendo descrito como que fora do tempo.
Por isso, os tempos verbais mais utilizados na descrição são imperfectivos: o
presente e o pretérito imperfeito. Eles não indicam uma progressão da ação e,
portanto, uma sucessão, pois falam do não acabado. O presente indica
simultaneidade em relação a um marco temporal pretérito inscrito no texto. Por
exemplo:
Agora não bebo mais. (O ato de beber é
concomitante com o momento da fala.);
Em dezembro de 1989, caia na Romênia o
regime Ceausescu. (O cair é concomitante com o marco temporal pretérito
“dezembro de 1989” instalado no texto.).
Voltemos ao primeiro trecho contido no item
b. Como o canto do urutau e o sussurrar
da brisa são sempre vistos como sempre concomitantes com a hora de ângelus (e sempre
abarcam, portanto, o momento da enunciação), usa-se o presente para expô-los.
Já o sentimento das pessoas é considerado particular àquela determinada
Ave-Maria, ocorrida num certo dia do passado. No entanto, é apresentado não na
sucessão dos acontecimentos (portanto, como algo acabado), mas como um estado
em duração (por conseguinte, como algo não acabado). Então, emprega-se o
pretérito imperfeito para expressá-lo.
A descrição como que congela o tempo, para
mostrar os seres do mundo em sua existência e não em seu devenir.
d) como a descrição identifica os seres e
mostra suas qualidades sem estabelecer entre eles relação de causalidade, a
ordem dos elementos do texto pode ser permuta sem qualquer prejuízo para a
compreensão. Sobre isso diz o poeta Paul VALERY:
“Toda a descrição reduz-se à enumeração das partes e dos aspectos de uma
coisa vista, e esse inventario pode ser disposto em qualquer ordem, o que
introduz em sua execução uma espécie de acaso”.
Por
exemplo, observamos o seguinte parágrafo descritivo:
Cadeiras de couro de alto espaldar, uma mesa de jacarandá de pés
torneados, uma lâmpada de prata suspensa ao teto, constituíam a mobília da
sala, que respirava um ar severo e triste. (José de ALENCAR, op.cit,.p.4.).
Poderíamos
fazer as seguintes permutações sem alterar a compreensão do texto.
Em
síntese, a descrição é regida pelos seguintes princípios:
ü
Focaliza estados e não transformações;
ü
Seu discurso é figurativo;
ü
Os tempos verbais nela privilegiados são o
presente e o pretérito imperfeito;
ü
Seus elementos não mantêm uma relação de
causalidade e, por isso, podem ser permutados sem afetar a compreensão do
texto.
Passemos agora a narração. Observemos o
texto a seguir:
Tragédia brasileira
Misael, funcionário da fazenda, com 63 anos de idade.
Conheceu Maria Elvira na Lapa – prostituída, com sífilis, dermite nos
dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de misericórdia.
Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio,
pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo quanto ela queria.
Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.
Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada.
Não fez nada disso: mudou de casa.
Viveram três anos assim.
Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.
Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria,
Ramos, Bom Sucesso, Vila Izabel, Rua Marques de Sapucaí, Niterói, Encantado,
Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do
Mato, Inválidos...
Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de
inteligência, matou-a com seis tiros, e a policia foi encontrá-la caída em
decúbito dorsal, vestida de organdi azul. (Manoel BANDEIRA, Estrela da Vida
Inteira, 4 ed., Rio de Janeiro, J. Olympio, 1973, p.146-7.).
A
narração é governada pelos seguintes princípios:
a) O
texto é figurativo. No exemplo anterior, trabalha-se com termos concretos
(Misael, Maria Elvira, Sífilis, namorado, mudar de casa etc.) para criar um
simulacro da ação do homem no mundo e, assim, dar-lhe sentido.
b) A
narração focaliza as transformações de estado. Essas transformações estão
correlacionadas entre si por uma relação de solidariedade, ou seja, uma
pressupõe a outra. Isso significa que as ações relatadas tem uma finalidade,
que dá sentido a cada uma das transformações. No texto, temos por exemplo as
seguintes relações de pressuposição: Misael e Maria Elvira mudam de casa porque
Maria Elvira arranja um namorado; faz isso porque está de “boca bonita”; etc. O
que dá sentido a ação de Misael de matar Maria Elvira são acontecimentos
anteriores. Cada ação sucede-se linear e consecutivamente à outra, cada uma
constitui o motivo que determina a seguinte.
c) Essas
ações que se pressupões são apresentadas como uma sucessão no tempo. Por isso,
ganha relevo na narração de anterioridade e de posterioridade. Por essa razão,
os tempos centrais da narração são os perfectivos: pretérito perfeito,
pretérito mais que perfeito etc. Podemos observar que a maioria dos tempos
verbais utilizados no texto acima é do pretérito perfeito.
d) Se
a relação mais relevante na narração é de anterioridade e posterioridade, nela
há uma progressão dos acontecimentos. Por conseguinte, um acontecimento
anterior não pode transformar-se em posterior, sem que se altere radicalmente a
compreensão do texto. Se mudássemos a célebre frase de César “Vim, vi, venci”
para “Venci, vim e vi”, poderíamos dizer que enquanto na primeira formulação,
ele venceu no lugar para onde veio, na segunda, venceu num dado lugar e depois
veio para outro.
Em síntese a narração é regida pelos
seguintes princípios
·
Focaliza transformações, que se pressupõem umas
as outras;
·
Seu discurso é figurativo;
·
Os tempos verbais fundamentais da narrativa são
os perfectivos;
·
Os acontecimentos narrados mantêm uma relação de
anterioridade e posterioridade e essa relação não pode ser alterada sem que se
afete a compreensão do texto.
Voltemo-nos
agora para os princípios que governam a dissertação. Tomemos como exemplo o
seguinte texto:
Nazismo sem bala
É fato comum na história dos povos que formas dessubstancializadas
sirvam, como cascas vazias, de habitação para discursos e práticas inteiramente
novos, cujo alcance e sentido não raro colidem com os originais. Talvez se o
neonazismo se nos apresente como mais um caso, uma vez que seu fundamento
material, psicológico e existencial difere radicalmente daqueles em que se
apoiou o movimento nazista, ainda que os “skinheads” adotem como símbolo a
suástica, como ídolo, Hitler, e como doutrina, a tese do espaço vital... (...)
O neonazismo assume integralmente o que o liberalismo não diz, mas
pratica com reservas. E ai encontra-se o primeiro traço distintivo fundamental
entre nazismo e neonazismo. Se o primeiro é o sintoma da “pobreza” (alemã) em
meio a afluência, o segundo é o sintoma da afluência (europeia) em meio à
pobreza. Disso decorre a diferença entre as concepções nazista e o neonazista
de espaço vital: o conceito nazista implica a delimitação do espaço vital e,
nesse sentido, ele é simplesmente excludente. O neonazismo, em contraponto ao
nazismo, pretende mais preservar o igual do que eliminar o diferente, por mais
sutil que possa parecer essa distinção.
Uma consequência marcante disso tudo é que o neonazismo dispensa a figura
do líder carismático. A mera delimitação do espaço vital e a preservação do
igual podem ser feitas de forma dispersa e, em grande parte, anônima. O
neonazismo é ainda mais covarde que o nazismo. A ausência do Fuhrer (não me
venham comparar Hitler com Le Pen) insere o neonazismo num outro registro. A
estatização da dimensão estética promovida pelo estetizar do estado, causando
impacto num pensador como Heidegger e, num sentido particular, até em Bataille.
O neonazismo, ao contrário, é mais moderno, mais técnico, mais mesquinho e, por
isso, mais “in-ofensivo”. Ele não deverá provocar a morte de 60 milhões de
seres humanos a bala. Sua defesa intransigente da ordem econômica vigente
poderá provocar a morte de um número ainda maior de pessoas, mas de fome.
Por fim, gostaríamos de salientar que o neonazismo não é nem será um
fenômeno simplesmente alemão. Ele existirá onde quer que populações
relativamente abastadas convivam com a pobreza “etnicamente” delimitável, seja
em São Paulo ou Berlim. (Fernando HADDAD, Folha de São Paulo, 27 de Jun. 1993).
Vemos
que esse modo de organização discursiva apresenta as seguintes características:
a) É
temático, uma vez que sua finalidade é explicar o mundo e não criar um
simulacro dele. O texto de Haddad opera predominantemente com palavras
abstratas (formas dessubstancializadas, alcance, sentido, fundamento material,
psicológico, existencial etc.) para explicar as ações dos “cabeças raspadas”
contra os imigrantes estrangeiros na Alemanha.
b) Trabalha
com as transformações implícitas ou explicitas. No texto a que nos referimos,
temos implicitamente a transformação do nazismo em neonazismo com todas as
consequências que isso acarreta: por exemplo, alteração da tese do espaço
vital, que passa de englobante para excludente. Por outro lado, explicitam-se
outras mudanças: por exemplo, a passagem do estado de ter para o de não ter um
líder carismático, passagem da vida para a morte para milhões de pessoas.
c) Como
a dissertação pretende enunciar verdades válidas para todos os tempos e todos
os lugares, o tempo verbal mais utilizado nela é o presente atemporal. HADDAD
utiliza a maioria absoluta dos verbos no presente. É o presente que cria o
efeito de sentido de atemporalidade e de universalidade das explicações sobre
os fenômenos do mundo dadas pela dissertação.
d) Como
a dissertação pretende explicar o mundo, as asserções feitas a respeito dele
mantêm entre si relações lógicas: causa, consequência, condicionalidade etc.
Essas relações são basicamente de causalidade. Por exemplo, na causalidade
propriamente dita (A porque B), B é causa de A; na consequência de (A então B),
A é a causa de B; na condição (se A, então B), A é causa de B no nível das
hipóteses. Como as asserções mantêm uma relação de causalidade, sua ordem não é
casual. Se tornarmos uma causa consequência, alteraremos profundamente a
compreensão do texto. No exemplo citado, encontramos um enorme conjunto de
relações implícitas ou explicitas de causalidade: porque o nazismo é sintoma de
pobreza (alemã) em meio a afluência, seu conceito de espaço vital implica expansão;
porque o conceito neonazista de espaço vital é excludente, pretende mais
preservar o igual do que eliminar o diferente; etc.
Em síntese, as características da
dissertação são:
·
Opera com transformações explicitas ou
implícitas;
·
Seu discurso é temático;
·
Nela o tempo verbal mais usado é o presente
atemporal;
·
Suas asserções mantêm entre si lógicas do tipo
causa, consequência, condição etc.
Existem
três modos de organizar o discurso porque há três maneiras de aprender a
realidade identificar e analisar as qualificações dos seres; testemunhar a ação
do homem no mundo, dando-lhe um sentido; explicar os liames causais entre os
acontecimentos. A primeira constrói uma imagem intemporal do mundo; a segunda
engendra um simulacro da ação transformadora do homem ao longo do tempo; a
terceira estabelece relações abstratas de causa e efeito, válidas para todos os
tempos e lugares, entre os acontecimentos. Descrever, narrar e dissertar são
modos de organização discursiva que correspondem, respectivamente, às operações
de identificar e qualificar, de simular transformações e de demonstrar
relações.
Referências
BARROS,
Diana da Luz Pessoa de. Teoria semiótica
do texto. São Paulo: Ática, 1990.
BENVENISTE,
E. Problemas de linguística geral.
São Paulo: Nacional, 1976.
FIORIN,
José Luiz. Elementos de analise do
discurso. São Paulo: Contexto/EDUSP, 1989.
FIORIN,
José Luiz, SAVIOLI, Francisco Platão. Para
entender o texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 1990.
GREIMAS,
A.J. Maupassant – La sémiotique du texte:
exercices pratiques. Paris: Seuil, 1976.
GREIMAS,
A.J., COURTES, J. Sémiotique:
dictionnaire raisonné de La théorie Du langage. Paris: Hachette, 1979.

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